Egos ocupam biomas

Imagem: Paul Seling


Numa dessas dinâmicas insuportáveis de ambiente corporativo, fui desafiada a imaginar uma bola no deserto. Daquelas atividades que ninguém leva muito a sério, mas todo mundo finge que está tendo uma epifania coletiva.

Quando começamos a revelar os estilos e tamanhos das bolas que imaginamos, fui desmascarada. No meu delírio particular, a minha bola era dourada, brilhante e gigantesca, da altura daqueles prédios absurdos de Dubai. O homem que conduzia aquele pequeno circo corporativo fez a revelação final, com a solenidade de quem entrega uma verdade universal: a bola era o nosso ego.

Me senti mal, porra. Logo eu?! Uma pessoa tão humilde?!

Achei tudo aquilo ridículo. Mas a verdade é que aquela bola nunca mais saiu da minha cabeça. Eu pensava: estou no deserto. Se tudo é vazio, por que não ocupar o maior espaço possível com a minha bola imaginária? Ué.

Nunca soube dizer se aquela dinâmica tinha algum fundamento psicológico ou se era apenas mais uma tentativa desesperada de dar profundidade a um PowerPoint. O fato é que a minha bola do deserto era linda, e, com o tempo, foi diminuindo sozinha. Sem trauma, sem método, sem workshop.

Porque, pensando bem, por que raios alguém iria querer uma bola de ouro gigante ocupando o espaço de um bioma inteiro? Que seja no deserto, na praia, no mato, no jardim de casa, no quarto ou até dentro do próprio carro. Ocupação demais também cansa.

Sempre que ganho algo, deixo algo para trás. Assim, não acumulo. Nem coisas, nem vaidades.

As bolas de ouro, deixo para os Ronaldos e para o Messi.

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