Como ofender sem perder o réu primário
Compreender o xingamento como produto cultural e não apenas como ato individual é fundamental. Ele expressa estruturas de opressão travestidas de humor ou hábito linguístico, e só perde força quando reconhecemos que mudar a linguagem é também mudar as relações sociais.

Tudo começou com a minha curiosidade pelo compliance que o grupo de humor Porta dos Fundos fez, para entender xingamentos ofensivos - se bem que pra ofender a gente quer mais é que se foda.
Eu não fiz o compliance, usei o chatGPT pra entender o significado e a etimologia da palavra "arromabado". Segundo o Porta, quer dizer empalado. E tudo bem enfiar uma tora no cu de alguém que mereça. Já o chatGPT me deu o significado de romper, quebrar, forçar algo fechado. Quem nunca precisou arrombar alguma coisa, né!? Gostei mais da definição do Dicionário Aurélio da Folha de São Paulo - livro físico, tá:
arrombado. Adj. 1. Roto com violência. 2. Vencido, abatido; quebrantado, humilhado. 3. Bras., Rj. pop. Diz-se de quem tem muita sorte, sortudo. • S. m. 4. Bras., Amaz. Furo que une dois rios através de um manguezal.
Bem mais elegante.
Daí em diante, comecei pesquisar sobre palavras e expressões inadequadas para xingar ou fazer piada com alguém - até pra não perder o réu primário por xingar algum idiota da forma errada.
Por exemplo, sempre falo a expressão homem, né! Uso para me referir a homens que não conseguem controlar o poder lhes dado e batem em mulheres. Ou até para os inofensivos que não conseguem encontrar a cueca na gaveta de cuecas, ou o talher na gaveta de talheres. Lembando que um xingamento serve para atribuir um valor negativo a alguém.
As palavras que usamos para xingar ou fazer piada dizem muito sobre a cultura e o momento histórico em que vivemos. Muitas expressões que antes eram consideradas “comuns” hoje são vistas como violentas, preconceituosas ou discriminatórias, porque a sociedade passou a reconhecer o peso simbólico que elas carregam. Não que eu goste de xingar, mas vim pesquisar.
O xingamento pode vir de uma palavra, de uma expressão, um gesto ou até mesmo de uma entonação. Ele nasce da necessidade humana de rebaixar o outro, seja pra ofender, descarregar raiva, ou reforçar uma hierarquia (de gênero, raça, classe, sexualidade, etc.).
Por isso, a origem de muitos xingamentos está ligada a discriminações estruturais. A lista ficou enorme, mas trouxe aqui algumas categorias e porque são problemáticas hoje:
Xingamentos de gênero e sexualidade
Bicha, viado, sapatão, vadia, piranha, frouxo, arrombado…
Esses termos foram (ou ainda são) usados pra humilhar comportamentos não normativos, especialmente de pessoas LGBTQIA+ ou mulheres.
Hoje, são evitados ou ressignificados por quem pertence a esses grupos (exemplo: “bicha” e “viado” como autoafirmação dentro da comunidade gay).
Xingamentos racistas ou colonialistas
Crioulo, mulata, denegrir, judiar, zé povinho, doméstica (como insulto), índio (pejorativo).
Esses termos carregam histórias de escravidão, exploração e estereótipos raciais.
Hoje, a linguagem antirracista propõe substituições que não reproduzam preconceito.
Xingamentos capacitistas (contra pessoas com deficiência)
Retardado, mongol, aleijado, doente mental, surdo-mudo, autista (como ofensa).
Esses termos reforçam a ideia de que ter uma deficiência é “ser inferior”.
O correto é falar “pessoa com deficiência” ou “pessoa autista” (sem conotação pejorativa).
Xingamentos ligados à saúde mental ou aparência
Louco, maluco, feio, gordo, anoréxica, burro, idiota.
Mesmo que pareçam “comuns”, podem reforçar estigmas e causar dor em quem sofre com essas condições.
Quem deveria ler, não lê, mas como observa Pierre Bourdieu em A dominação masculina (1998), a linguagem pode funcionar como uma “violência simbólica”: ela naturaliza desigualdades por meio de palavras que parecem banais, mas produzem efeitos reais de dominação. A Pesquisa Orgulho e Preconceito do do Instituto Locomotiva (2022) revela que 81% das pessoas LGBTQIA+ no Brasil já ouviram ofensas relacionadas à sua identidade, e 61% afirmam ter sido alvo de piadas no ambiente de trabalho, o que reforça o caráter estruturante desses xingamentos.
O mesmo se observa no campo racial: segundo a ONU Brasil (2023) no Guia de Comunicação Antirracista, expressões como “denegrir” e “mulata” perpetuam imaginários escravocratas e sexualizam corpos negros. Além disso, estudos da Universidade de Brasília em Linguagem capacitista e exclusão social: análise de termos e impactos na comunicação, (2021) indicam que termos capacitistas, como “retardado” ou “aleijado”, ainda são reproduzidos como sinônimos de fracasso ou limitação, reforçando o preconceito contra pessoas com deficiência.
A boa notícia é que a linguagem muda com a sociedade. Palavras que antes machucavam podem ser reapropriadas, reformuladas ou simplesmente deixadas pra trás. Isso não é censura, é evolução ética e cultural.

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