A âncora e o voo
O jornalista carrega sempre uma história no bolso, ainda que a vida o obrigue a negociar palavras em vez de lançá-las ao vento.
No ofício de assessoria de imprensa, as pautas são mercadorias vendidas com rigor, medidas pelo eco frio do clipping que se acumula ao fim do mês. Mas dentro do mercado de notícias domesticadas pulsa a inquietação: até onde posso me envolver com o que escrevo? Onde começa a fronteira entre a função e o desejo de reportar o mundo em sua inteireza?
O tempo, este inimigo antigo, nunca se dobra às minhas vontades.
Sobra pouco para me multiplicar, menos ainda para sonhar.
Que a comunicação possa ser mais do que engrenagem, que possa ser também sopro, expansão e respiro.
Quem dera escrever à sombra de um jardim, meu computador apoiado na mesa quente de verão.
Em vez disso, visto o colete corporativo e sigo a cadência dos relógios, das reuniões e das pautas aprovadas.
Ainda assim, há certo conforto na disciplina.
Para mentes saltitantes como a minha, o ritmo é âncora.
.png)


Comentários
Postar um comentário