Das grifes de Milão para as ruas de Curitiba
Carlito foi para a Itália ainda menino. Tinha sete anos e uma mãe que carregava um sonho: fazer da prostituição seu passaporte para uma vida melhor. Levou os dois filhos pequenos, mas decidiu poupar a menina da dureza do seu destino. A pequena ficou no Brasil, sob os cuidados dos avós. O pai? Carlito nunca conheceu. Quando perguntava, a resposta da mãe vinha afiada como faca:
“Pela minha vontade, vocês nunca vão conhecer. Quando forem maiores de idade, se quiserem ir atrás, vão por conta e risco. Não aconselho!”
Viajou o mundo todo. Vestia grifes italianas. Brilhou nos eventos de moda de Milão, fazia bebidas para modelos e empresários. Movia-se como quem pertencia ao mundo. Carlito estava nos camarins das grandes grifes, nos bastidores onde poucos tinham acesso. Era ali, entre taças de espumante e conversas sussurradas, que acreditava ter controle sobre tudo.
“Eu participei das festas da alta elite e achei que tinha controle sobre o uso de drogas. Sempre fumei meu baseado, cheirei meu pó. Me desculpe, senhora! Eu sei que a cocaína tem um efeito devastador no nosso corpo, mas, mesmo assim, eu usava com sabedoria.”
Ele ri, e eu refleti sobre o que seria “uso com sabedoria”. Meu primeiro baseado foi aos 24 anos.
“Aliás, você está com tempo, senhora?”
Eu disse que sim. Ele continuou:
“Eu sempre vivi na farra, confesso, mas o problema foi quando conheci meu pai. Que o diabo o tenha!”
Riu alto, desenhou um gesto estranho no ar e repetiu:
“Que-o-diabo-o-tenha!”
A mãe morreu na Europa. O irmão construiu sua vida por lá. Carlito fala dela como se ainda estivesse viva.
“Uma mulher maravilhosa que viveu o que ninguém quer viver para dar uma ótima vida aos filhos.”
Mandava dinheiro para a filha no Brasil, garantia de que os meninos estivessem bem-educados e bem-relacionados.
“Se eu tivesse seguido seus conselhos, mamma...” com as mãos erguidas para o céu e o sotaque italiano carregado de saudade: "eu teria me tornado um homem incrível!"
Carlito esperou a maioridade como quem espera uma sentença. Aos 18, ele e o irmão fizeram o que a mãe nunca recomendou: foram atrás do pai. Um ano de busca até localizá-lo em Nova Iorque. Planejaram uma surpresa. Chegaram primeiro à casa da tia, a mulher que o criou. Esperaram.
“Quando ele entrou, meu coração quase se espatifou dentro de mim”, disse. “O velho era um furacão. Os olhos arregalados e a fala atravessada pelo pó. No nosso primeiro contato, meu pai, que eu nem conhecia, estava muito louco com uma caixinha de Budweiser na mão.”
Carlito riu, mas não era bem humor.
“Eu sou o Carlito. Esse é meu irmão. Somos seus filhos. Você lembra da gente?”
O pai piscou, um teatro de surpresa, e abriu os braços.
“Sim, meu filho! Vem cá me dar um abraço!”
O abraço veio. E, junto dele, o abismo.
“Conheci meu pai e, em uma semana, ele me apresentou o crack. Acabou com a minha vida. Voltei pra Itália e comecei a busca pela droga. Perdi tudo que eu tinha: o trabalho, os amigos, minha esposa… tudo!”, resume.
Carlito conta que voltou ao Brasil há 16 anos, fugindo de si mesmo.
“Quando percebi que era um dependente químico, vim para a casa da minha irmã no Rio de Janeiro. Ela me ajudou, mas fui parar na cracolândia e acabei me desligando completamente de toda a minha rede de contato”.
Ele resume assim, como se fosse um roteiro de cinema, mas a realidade não é ficção. Em 2006, o crack era um problema crescente. No entanto, na Europa, ainda o tratavam como um intruso, limitado a 2% dos dependentes que procuravam tratamento. Na Itália, o pó ainda reinava absoluto.
Carlito nunca mais foi à Itália. Estava onde o crack existia,e onde ele existia só pelo crack. Agora, aos 39 anos, vive na rua. Ainda fala com educação refinada, gesticula como quem cortava limões para os drinks nos desfiles de moda em Milão no passado.
O pedinte não diz isso com amargura. Diz como quem entende que a vida nem sempre dá voltas. Às vezes, ela para em algum ponto, e é ali que a gente fica. Em um momento, ele tentou se recuperar. Passou um tempo em uma casa de apoio religiosa. Não é um homem de fé, mas ali encontrou um lugar de silêncio e reflexão, onde aprendeu a aceitar a própria condição.
“Foi bom, me ajudou a entender que eu realmente era um morador de rua. No começo, era humilhante manguear”, diz, referindo-se ao ato de pedir coisas para as pessoas que estão passando na rua.
O pedinte me contou essa história, rindo de seu próprio destino, brindando com um copo de vento à mãe que fez o impossível, ao pai que nunca quis conhecer e ao diabo, sua única companhia.



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