Dolores, a prostituta
Andar pelo centro de Curitiba traz a sensação de que cada esquina guarda uma história à espera de ser lida com o olhar. Muitas delas são contadas em silêncios, olhares ou palavras que emparelham no ar. Dolores Martins, com seus 59 anos, é uma dessas narradoras invisíveis, cuja história se mistura aos cheiros da metrópole, ao barulho dos passos apressados e às fachadas antigas que testemunham as vidas que se cruzam ali.
Com os cabelos loiros, que ela pinta para apagar o rastro da idade, Dolores veste um casaquinho de pelos macios, quase como um escudo para o frio e para o mundo. A calça legging preta completa o visual discreto, porque, como ela mesma diz, não precisa de roupas curtas para conquistar seus clientes. “Eu vendo meu serviço no papo”, confesso com uma voz firme, mas doce, como quem carrega a experiência de quem aprendeu a negociar muito mais do que preços: aprendeu a negociar a própria vida.
Dolores trabalha em um quartinho de um apartamento modesto, dividido com outras três mulheres, na esquina das ruas Presidente Farias e Alfredo Bufren. É dali que ela tira o sustento para manter a casa e criar o neto Vitor, de cinco anos. Toda manhã, às oito em ponto, ela desce para bater seu ponto invisível e deixa o pequeno sob os cuidados dos netos mais velhos. Quando o relógio marca cinco da tarde, ela encerra sua jornada, busca Vitor na creche e volta para casa, onde a noite vira um recomeço de outra rotina: a de avó.
O ponto de Dolores é compartilhado com outras mulheres, bem na calçada em frente a uma pequena venda. Thaís Gonçalves, que trabalha como atendente de loja, tem apenas 19 anos, mas já se acostumou com a dinâmica do lugar. Para ela, as prostitutas que moram ou trabalham nos andares de cima são mais do que vizinhos; são clientes frequentes e até companheiras de conversa. “Elas são muito queridas. Às vezes rola um barraco, mas depois acabam se entendendo. Convivemos bem”, diz Thaís com um sorriso despreocupado.
Nem todos, no entanto, veem harmonia no cenário. Jorge Silva, de 36 anos, traz outro ponto de vista. Ele vive nas ruas do centro desde os três anos de idade e fala com a voz de quem aprendeu, da forma mais dura, a sobreviver em meio ao caos urbano. Para ele, a rua tem regras, e elas precisam ser respeitadas. “Alguns não entendem que cada um tem seu lugar e sua função. Quando não respeitam as regras, sempre dá merda!”, desabafa, gesticulando com intensidade. Jorge explica que esses princípios de convivência não são escritos, mas valem para todos: para quem fica e para quem passa, como eu.
Atravessar o centro histórico é, de certa forma, um exercício de escuta. Dolores, Thaís, Jorge, cada um carrega sua narrativa e entrega uma parte do retrato que compõe aquele espaço. Entre as esquinas e os degraus, entre as fachadas antigas e as sombras da tarde, a vida continua. Cada um com suas regras, com suas histórias, com seu próprio ponto no mundo.



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